Literatura e leitura
Jornalista resgata parceria histórica entre Graciliano Ramos e Marçal Oliveira
Palestra proferida por Pedro Oliveira faz parte do projeto Horizontes do Saber, promovido pela Academia Alagoana de Letras
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A memória cultural de Alagoas teve uma manhã de reencontro com a própria história. Na última quarta-feira (19), a Casa Jorge de Lima, em Maceió, recebeu o jornalista Pedro Oliveira para a palestra “Graciliano Ramos e Marçal Oliveira, uma parceria silenciosa na história”.
O conferencista revisitou a trajetória de dois homens, unidos pela cultura, pela inteligência e por uma relação de admiração e respeito mútuos, construída no município de Palmeira dos Índios.
Realizado pela Academia Alagoana de Letras, dentro do projeto Horizontes do Saber – Ciclo Permanente de Palestras e Conferências, o encontro trouxe à luz não apenas a dimensão literária de Graciliano Ramos, mas também a história de Marçal José de Oliveira.
Intelectual autodidata, músico, escritor, teatrólogo, ator, compositor e maestro, é apontado por Oliveira como um dos responsáveis pelo nascimento do teatro na cidade do Agreste alagoano.
Em sua fala - marcada por memórias familiares e referências históricas -, o jornalista revelou a proximidade entre os dois personagens e resgatou episódios que ajudam a compreender como essa parceria se tornou parte da história cultural do município. “Porque os povos somente permanecem grandes quando preservam aqueles que construíram seus alicerces”, disse Oliveira.
Entre os relatos, destacou o encontro entre Graciliano e Marçal, às vésperas da posse do escritor como prefeito de Palmeira dos Índios, em 1927. O recente eleito procurou, no amigo, uma figura de sua confiança para ajudá-lo a enfrentar os desafios da administração pública.
Esta parceria, “profundamente comprometida com o interesse público”, marcaria a história do município do Agreste alagoano. Dela nasceriam os famosos relatórios, escritos por Graciliano, mas cujos dados foram levantados e atestados por Marçal.
Confira abaixo o discurso completo de Pedro Oliveira, proferido para um seleto grupo de intelectuais e admiradores da cultura e literatura alagoanas.
O ciclo de palestras e conferências está disponível no canal da Academia Alagoana de Letras, no YouTube.
“Marçal José de Oliveira e Graciliano Ramos: uma parceria silenciosa na história de Palmeira dos Índios
Pedro Oliveira, jornalista
Senhor Presidente da Academia Alagoana de Letras, Rostand Lanverly, senhoras acadêmicas, senhores acadêmicos, autoridades, amigos.
Permitam-me iniciar agradecendo, com sincera emoção, o honroso convite para ocupar esta significativa tribuna.
Falar nesta Casa é um privilégio. Afinal, como escreveu Machado de Assis, "a gratidão é uma dívida que os filhos nem sempre aceitam no inventário". Hoje compareço para saldar uma dívida de gratidão para com a história de minha terra, para com minha família e para com dois homens que ajudaram a escrever, cada um à sua maneira, uma das mais belas páginas da cultura alagoana.
Confesso que me sinto pequeno diante da grandeza dos personagens que hoje evocamos.
De um lado, Graciliano Ramos, ou melhor, Graciliano Ramos de Oliveira, um dos maiores escritores da língua portuguesa, cuja obra atravessou fronteiras e permanece viva porque, como ele próprio dizia, "a palavra foi feita para dizer".
Do outro lado, Marçal José de Oliveira, um homem quase desconhecido da historiografia brasileira, mas gigante para a cultura de Palmeira dos Índios. Um intelectual autodidata, artista múltiplo e, por um desígnio generoso da Providência, meu avô materno.
Hoje não venho apenas falar de um parentesco.
Venho prestar um tributo.
Marçal José de Oliveira foi um homem de extraordinária diversidade intelectual.
Pai de nove filhos - Desdêmona, Doneta, Deoclídia, Durvalina, Doralice, Djanira, Delvira, Maria e Bonifácio - construiu uma família cuja maior herança jamais foi material.
Seu patrimônio era a cultura.
Autodidata, dominava outros idiomas além do português. Foi músico, escritor, teatrólogo, ator, compositor, maestro e responsável pela criação do teatro em Palmeira dos Índios.
Escrevia as próprias peças, montava os espetáculos e escalava os próprios filhos para representar.
Pode-se afirmar, sem exagero, que o teatro palmeirense nasceu pelas mãos de Marçal José de Oliveira.
Como se tantas atividades não bastassem, tornou-se também um respeitadíssimo mestre fogueteiro, disputado nas festas juninas e nas celebrações religiosas, quando a arte dos fogos ainda era uma manifestação cultural.
Foi, portanto, um homem que iluminava o céu e também iluminava espíritos.
Fernando Pessoa escreveu que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena."
Marçal possuía uma alma imensa.
Foi justamente essa grandeza que aproximou dois homens tão diferentes na personalidade e tão semelhantes no amor pela cultura.
Graciliano Ramos e Marçal Oliveira não eram amigos de infância.
A amizade nasceu da admiração.
Sempre que se encontravam, especialmente na tradicional "Loja Sincera", pertencente à família
Ramos, as conversas se prolongavam por horas.
Ali não se discutiam apenas negócios.
Falava-se de literatura, música, teatro, política, educação e do futuro de Palmeira dos Índios.
Dois homens apaixonados pela inteligência encontravam-se para alimentar o espírito.
Em 7 de outubro de 1927, Graciliano Ramos foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios com 433 votos.
Não enfrentou adversário.
Aceitou a missão quase constrangido.
Entre a eleição e a posse procurou Marçal Oliveira.
Pediu para visitá-lo em casa.
A família preparou um café.
Depois das primeiras conversas, Graciliano foi direto ao assunto.
Disse de sua resistência em aceitar o cargo, falou das dificuldades que iria enfrentar. Dos interesses que iria contrariar, combatendo privilégios de gente poderosa. Da sua necessidade de ter ao seu lado uma pessoa na qual tivesse sua plena confiança, para administração e principalmente do dinheiro do povo.
Se o senhor estiver ao meu lado, enfrentaremos juntos essa missão.
Não era um convite.
Era um pedido de confiança.
Os dois apertaram as mãos.
Abraçaram-se.
Naquele instante nascia uma parceria administrativa que marcaria a história de Palmeira dos Índios.
Marçal assumiu a secretaria da Prefeitura.
Passou a cuidar da administração, da contabilidade, da organização financeira e tornou-se o principal conselheiro do prefeito.
Vieram os conflitos previstos.
A austeridade de Graciliano incomodou as elites políticas.
A cobrança rigorosa dos impostos desagradou aos privilegiados.
A defesa intransigente do patrimônio público produziu adversários.
Mas Graciliano não fazia distinção entre amigos, adversários ou familiares.
Há um episódio que ilustra de maneira definitiva seu caráter.
Os animais soltos pelas ruas passaram a ser recolhidos, e seus proprietários multados.
Ao final do primeiro dia de fiscalização, o responsável informou ao prefeito que apenas dois cavalos haviam sido poupados: os pertencentes ao coronel Sebastião Ramos de Oliveira.
Era o pai de Graciliano.
O prefeito levantou-se indignado.
Determinou imediatamente:
"Seu Marçal, demita o fiscal, lavre pessoalmente a multa e mande apreender agora os animais."
Por ponderação do secretário, o fiscal recebeu apenas uma advertência.
Os cavalos foram apreendidos.
A multa foi aplicada.
O pai rompeu relações com o filho.
A República, para Graciliano, começava dentro de casa.
Foi justamente nessa administração que nasceram os famosos relatórios enviados ao governador de Alagoas.
Durante décadas, a atenção voltou-se quase exclusivamente para a extraordinária qualidade literária desses documentos.
E, de fato, a genialidade do texto pertence integralmente a Graciliano Ramos.
Entretanto, por trás daquela escrita havia um sólido trabalho administrativo.
Marçal José de Oliveira era o secretário da Prefeitura.
Seu nome aparece oficialmente nos balanços do exercício de 1928.
Era ele quem organizava as receitas, consolidava despesas, conferia documentos, preparava balancetes, certificava as contas públicas e mantinha a ordem administrativa necessária para que o prefeito pudesse prestar contas com absoluta precisão.
Cinco dias depois de Marçal assinar o balanço, Graciliano apôs seu visto.
É um detalhe aparentemente simples.
Mas profundamente revelador.
A literatura precisava da verdade dos números.
E os números precisavam da honestidade dos homens.
Não existe qualquer evidência de que Marçal tenha escrito uma linha dos famosos relatórios.
A autoria literária pertence, exclusivamente, a Graciliano Ramos.
Mas também é justo reconhecer que aqueles textos repousavam sobre uma base administrativa sólida, construída por uma equipe pequena, austera e profundamente comprometida com o interesse público.
Marçal foi um dos pilares silenciosos dessa construção.
Pouco tempo depois, ambos deixaram a Prefeitura.
Graciliano seguiria o caminho que o transformaria num dos maiores escritores brasileiros.
Marçal jamais voltou ao serviço público.
Retornou ao teatro, à música, à literatura, às festas populares e aos folguedos que tanto encantavam sua cidade.
Cada um continuou servindo à sociedade da maneira que sabia fazer melhor.
Guimarães Rosa escreveu que "as pessoas não morrem; ficam encantadas."
Creio que é exatamente isso que acontece com homens como Graciliano Ramos e Marçal Oliveira.
Eles permanecem encantando gerações.
Permitam-me concluir com uma lembrança profundamente pessoal.
Quando tive a honra de ingressar na Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes, fiz apenas um pedido, a minha presidente lsvânia Marques.
Desejei ocupar a cadeira cujo patrono fosse Marçal José de Oliveira.
Não foi um gesto de família.
Foi um compromisso de memória.
Porque os povos somente permanecem grandes quando preservam aqueles que construíram seus alicerces.
Graciliano deu ao Brasil uma obra imortal.
Marçal ajudou a construir a cultura de uma cidade que, graças aos dois, jamais será pequena diante da história.
Muito obrigado.”